Antigo Testamento
Sansão
O homem mais forte e mais frágil
- Onde está na Bíblia
- Juízes 13–16
- Época
- período dos juízes
A história de Sansão: consagrado a Deus antes de nascer e dono de uma força sobrenatural, viveu dominado pelos próprios impulsos — e só enxergou quando já estava cego.
Publicidade
Sansão é o personagem mais contraditório do Antigo Testamento. Teve o nascimento anunciado por um anjo, foi consagrado a Deus desde o ventre, recebeu uma força que ninguém jamais teve — e desperdiçou quase tudo isso em vinganças pessoais e casos amorosos mal resolvidos. A Bíblia conta essa história sem passar pano.
O filho prometido
Israel estava havia quarenta anos sob domínio dos filisteus. A mulher de Manoá era estéril, e o Anjo do Senhor apareceu a ela com um anúncio e uma condição: o menino seria nazireu de Deus desde o ventre materno.
O voto de nazireu tinha três marcas: não beber vinho, não tocar em cadáver e não cortar o cabelo. Era normalmente temporário e voluntário. No caso dele, era vitalício e escolhido por outros — antes mesmo de nascer.
Ele nasceu, cresceu, e o Espírito do Senhor começou a agir sobre ele.
Força sem freio
O que o texto mostra em seguida é uma sequência de episódios impressionantes e desconcertantes.
Viu uma mulher filisteia e exigiu dos pais que a conseguissem para ele: "tomai-ma, porque ela agrada aos meus olhos". No caminho, despedaçou um leão jovem com as mãos nuas. Depois voltou e tirou mel da carcaça do animal — um cadáver, exatamente o que um nazireu não devia tocar.
Propôs um enigma na festa de casamento, apostando trinta mudas de roupa. Os convidados pressionaram a noiva, ela arrancou dele a resposta, e ele reagiu matando trinta homens em outra cidade para pagar a aposta.
Quando a noiva foi dada a outro, amarrou tochas nas caudas de trezentas raposas e queimou as plantações filisteias. A retaliação matou a moça e o pai dela. Ele revidou de novo.
E, cercado, matou mil homens com uma queixada de jumento.
Ele julgou Israel por vinte anos. Mas quase tudo o que fez nasceu de ofensa pessoal, não de missão.
Dalila
A quarta mulher da história dele foi Dalila, no vale de Soreque. Os príncipes filisteus a procuraram e ofereceram uma fortuna: mil e cem moedas de prata de cada um, para descobrir onde estava aquela força.
O que acontece a seguir é quase inacreditável. Ela pergunta abertamente. Ele mente — sete vergas verdes. Ela amarra e grita que os filisteus vêm. Ele se solta.
Ela pergunta de novo. Ele mente de novo — cordas novas. Mesmo resultado.
Publicidade
Terceira vez — as sete tranças no tear. De novo.
Em nenhum momento ele considera que a mulher que já tentou entregá-lo três vezes vai tentar a quarta. E ela insiste todos os dias, até que "a sua alma se angustiou até a morte". Então ele contou tudo:
Nunca subiu navalha à minha cabeça, porque sou nazireu de Deus desde o ventre de minha mãe. (Juízes 16:17)
Ela o fez dormir sobre os joelhos, mandou rapar as sete tranças, e a frase seguinte é a mais triste do capítulo: ele acordou pensando que sairia como das outras vezes, "porém ele não sabia que já o Senhor se tinha retirado dele".
Cego, preso e moendo
Os filisteus furaram-lhe os olhos, levaram-no a Gaza, amarraram-no com correntes de bronze e o puseram a girar um moinho — trabalho de animal.
E aí vem um detalhe que o narrador coloca quase de passagem, mas que muda tudo: "o cabelo da sua cabeça começou a crescer".
O último ato
Houve uma grande festa em honra a Dagom, o deus filisteu. Milhares de pessoas, com três mil só no terraço. Trouxeram Sansão para servir de diversão.
Ele pediu ao rapaz que o guiava que o encostasse nas colunas centrais do templo. E fez a única oração registrada em toda a vida dele:
Senhor Jeová, peço-te que te lembres de mim, e fortalece-me agora só esta vez, ó Deus. (Juízes 16:28)
Empurrou as duas colunas. O templo desabou. O texto encerra dizendo que os que matou na morte foram mais do que os que matara em vida.
O que a história dele ensina hoje
Sansão é o retrato de quem tem uma força enorme em uma área e nenhuma disciplina em outra. Ele conseguia rasgar um leão e não conseguia dizer não a si mesmo.
A queda dele ensina como o afastamento acontece na prática: ele foi entregando um pedaço de cada vez, brincando com o limite, até o dia em que não notou que a presença já tinha ido embora. A parte mais assustadora do texto não é o cabelo cortado — é ele não perceber.
E há uma última palavra, difícil e generosa: mesmo depois de tudo, quando ele clamou, foi ouvido. Hebreus 11 o inclui na lista dos heróis da fé. Não porque a vida dele foi exemplar, mas porque no fim ele se lembrou de quem realmente sustentava aquela força.
Frases da Bíblia