Antigo Testamento

Ester

A rainha que arriscou a própria vida

Onde está na Bíblia
Livro de Ester
Época
c. 480 a.C.

A história de Ester: a órfã judia que virou rainha da Pérsia e arriscou a vida para impedir o extermínio do seu povo — o livro em que Deus nunca é citado.

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O livro de Ester tem uma peculiaridade única em toda a Bíblia: o nome de Deus não aparece uma única vez nele. Nenhuma oração registrada, nenhum milagre explícito, nenhuma voz do céu. E, mesmo assim, é uma das histórias mais claras sobre providência divina — daquele tipo que só se enxerga olhando para trás.

O contexto

A ação se passa em Susã, capital do Império Persa, durante o reinado de Assuero (Xerxes I). Os judeus estavam espalhados pelo império desde o exílio; muitos não haviam voltado a Jerusalém.

Tudo começa com um banquete de seis meses. No auge da festa, embriagado, o rei mandou chamar a rainha Vasti para exibir a beleza dela aos convidados. Ela recusou. Foi destituída, e um decreto imperial saiu para escolher uma nova rainha entre as jovens mais belas do império.

A órfã que virou rainha

Hadassa — chamada Ester — era judia, órfã de pai e mãe, criada pelo primo Mardoqueu. Foi levada ao palácio junto com as outras candidatas, num processo de doze meses de preparação.

Por orientação de Mardoqueu, ela escondeu a própria origem. Agradou ao rei e foi coroada rainha.

Vale notar o que a história não romantiza: uma jovem judia, sem pai nem mãe, levada para o harém de um rei estrangeiro. Ela não escolheu aquilo.

O decreto de extermínio

Hamã, o homem mais poderoso depois do rei, exigia que todos se curvassem à sua passagem. Mardoqueu recusou. Hamã, em vez de punir só ele, decidiu exterminar todo o povo dele.

Convenceu o rei com uma meia-verdade — "há um povo espalhado que tem leis diferentes" — e pagou uma fortuna ao tesouro real. Saiu o decreto: em um dia determinado, todos os judeus do império, de crianças a idosos, deveriam ser mortos.

Sorteou-se a data com o "pur" (a sorte). Faltavam onze meses.

"Para tal tempo como este"

Mardoqueu rasgou as vestes e mandou avisar Ester. Ela hesitou — e por um motivo concreto: quem entrasse na presença do rei sem ser chamado seria morto, a menos que ele estendesse o cetro de ouro. E fazia trinta dias que ela não era chamada.

A resposta de Mardoqueu é uma das mais duras e mais lúcidas da Bíblia:

Não imagines que, no coração do rei, escaparás da mesma sorte que todos os outros judeus... quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino? (Ester 4:13-14)

Ele diz duas coisas: você também vai morrer, e talvez você esteja exatamente onde está por causa deste momento.

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Ester decidiu. Pediu três dias de jejum a todos os judeus de Susã e concluiu com a frase que a define:

E, se perecer, pereci. (Ester 4:16)

A reviravolta

Ela entrou. O rei estendeu o cetro. E, em vez de fazer o pedido na hora, convidou o rei e Hamã para um banquete. No banquete, convidou para um segundo banquete no dia seguinte.

Naquela noite, o rei não conseguiu dormir. Mandou que lessem as crônicas do reino e descobriu que Mardoqueu havia denunciado uma conspiração contra ele anos antes e jamais fora recompensado.

Nesse exato momento, Hamã chegava ao palácio para pedir autorização de enforcar Mardoqueu numa forca de vinte e dois metros que mandara construir. Antes que falasse, o rei perguntou: "que se fará ao homem a quem o rei deseja honrar?".

Hamã, achando que era sobre si mesmo, descreveu a maior honra possível — e foi obrigado a executá-la pessoalmente em Mardoqueu, conduzindo o cavalo pelas ruas.

No segundo banquete, Ester revelou sua identidade e denunciou Hamã. O rei saiu furioso ao jardim; ao voltar, encontrou Hamã caído sobre o divã de Ester implorando por misericórdia — e interpretou como assédio.

Hamã foi enforcado na forca que construíra para Mardoqueu.

O decreto não podia ser revogado

Aqui está o detalhe que muita gente esquece: pela lei persa, um decreto selado com o anel real não podia ser anulado. Nem pelo próprio rei.

A solução foi um segundo decreto, permitindo aos judeus se defenderem e se organizarem. No dia marcado para o extermínio, eles não foram vítimas — resistiram e venceram.

Daí nasceu a festa de Purim, celebrada por judeus até hoje, cujo nome vem do "pur", o sorteio que Hamã fez para escolher a data do massacre.

O que a história dela ensina hoje

O livro de Ester é a Bíblia mostrando como Deus age na maior parte do tempo: não com mar se abrindo, mas com uma noite de insônia no momento exato, um registro antigo lido na hora certa, uma pessoa que estava no lugar certo por caminhos que ela não escolheu.

Há também uma pergunta que o livro devolve ao leitor. Ester poderia ter ficado calada e, com sorte, sobreviver escondida no palácio. Ela escolheu usar a posição que tinha em favor de quem não tinha nenhuma — sabendo o preço.

"Quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?" continua sendo uma boa pergunta para qualquer pessoa que tenha, hoje, alguma influência que outros não têm.

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