Antigo Testamento

Davi

O rei segundo o coração de Deus

Onde está na Bíblia
1 Samuel 16 – 1 Reis 2, Salmos
Época
c. 1000 a.C.

A história de Davi: o pastorzinho que derrotou Golias, o fugitivo perseguido por Saul, o rei de Israel, o pecado com Bate-Seba e os salmos que ele escreveu.

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Davi é o personagem mais completo da Bíblia — não o mais perfeito, o mais completo. Conhecemos a vida dele por fora, pelos livros históricos, e por dentro, pelos salmos que ele escreveu nos piores e nos melhores momentos.

O que sobrou na última fila

Deus enviou o profeta Samuel à casa de Jessé, em Belém, para ungir o próximo rei. Sete filhos passaram diante dele, todos rejeitados. Samuel perguntou se não havia mais nenhum. Havia: o caçula, no campo, com as ovelhas — não valia nem a pena chamá-lo para a apresentação.

Foi ali que Deus disse a frase que resume o critério dele:

O homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração. (1 Samuel 16:7)

Davi foi ungido rei ainda adolescente — e voltou a pastorear ovelhas. Levaria mais de quinze anos para se sentar no trono.

Golias

O exército de Israel estava paralisado havia quarenta dias por um gigante filisteu que desafiava a todos. Davi chegou ao acampamento só para levar comida aos irmãos, ouviu o desafio e se ofereceu para lutar.

Recusou a armadura do rei — pesada demais, e ele não estava acostumado. Desceu ao ribeiro, escolheu cinco pedras lisas e foi com a funda de pastor. A resposta dele ao gigante define a cena:

Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu vou a ti em nome do Senhor dos Exércitos. (1 Samuel 17:45)

Uma pedra bastou.

Os anos de fuga

A vitória trouxe fama — e a fama trouxe a inveja do rei Saul, que passou a persegui-lo. Davi virou fugitivo por cerca de uma década: escondeu-se em cavernas, fingiu-se de louco para escapar, viveu com um bando de descontentes e endividados.

Duas vezes teve Saul indefeso ao alcance da mão. Duas vezes recusou matá-lo. Preferiu esperar o tempo de Deus a tomar pela força o trono que já lhe pertencia por unção.

Boa parte dos salmos mais angustiados nasceu nessa fase — textos em que ele reclama, chora, questiona e, no fim, decide confiar de novo.

O rei

Saul morreu em batalha e Davi finalmente reinou: sete anos sobre Judá e mais trinta e três sobre Israel unificado. Conquistou Jerusalém e fez dela a capital. Trouxe a Arca da Aliança para a cidade dançando na frente do cortejo, com tal entusiasmo que a própria esposa o achou ridículo.

Foi o auge político de Israel. Deus lhe fez uma promessa que atravessaria séculos: um descendente seu teria um trono eterno — promessa que o Novo Testamento aplica a Jesus, chamado "filho de Davi".

A queda

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Numa primavera, "no tempo em que os reis saem para a guerra", Davi ficou em casa. Da varanda do palácio viu Bate-Seba, mulher de Urias, um de seus soldados mais leais, tomando banho. Mandou buscá-la. Ela engravidou.

Veio o encobrimento: chamou Urias do campo de batalha para que dormisse com a esposa e o filho parecesse dele. Urias, por lealdade aos companheiros, recusou-se a ir para casa. Então Davi mandou colocá-lo na linha de frente e recuar o apoio. Urias morreu.

O rei que não matou Saul quando podia mandou matar um inocente que confiava nele.

"Tu és o homem"

Cerca de um ano depois, o profeta Natã procurou o rei e contou a história de um homem rico que roubou a única ovelhinha de um pobre. Davi se indignou e sentenciou: aquele homem merecia morrer.

Natã respondeu com quatro palavras: "Tu és este homem".

E Davi, que tinha todo o poder para mandar executar o profeta, apenas disse: "Pequei contra o Senhor". Desse momento nasceu o Salmo 51:

Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova em mim um espírito reto. (Salmos 51:10)

O perdão veio, mas as consequências não foram canceladas. O filho morreu. E a violência entrou na família dele: um filho violentou a própria irmã, outro filho matou esse irmão, e depois se rebelou e tentou tomar o trono, obrigando o pai a fugir de Jerusalém chorando.

O fim

Absalão, o filho rebelde, morreu na batalha contra as tropas do próprio pai. Ao receber a notícia da vitória, Davi não comemorou — subiu à câmara sobre a porta e chorou: "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti".

Davi reinou quarenta anos. Antes de morrer, entregou a Salomão os planos e os materiais para o Templo que ele mesmo sonhou construir e não pôde.

Por que ele é chamado "homem segundo o coração de Deus"

A expressão incomoda muita gente, e com razão: como um adúltero e mandante de assassinato recebe esse título?

A resposta não está na conduta dele, mas na reação dele quando confrontado. Saul, diante do pecado, se justificou e culpou o povo. Davi, diante do pecado, se quebrantou. Ele nunca alegou inocência.

Os salmos mostram alguém que levava tudo a Deus: a alegria, a culpa, a raiva, o medo, a dúvida. Ele não editava a oração para parecer melhor.

O que a história dele ensina hoje

A vida de Davi diz duas coisas ao mesmo tempo, e as duas precisam ser ouvidas juntas.

A primeira: nenhum passado te desqualifica se você volta de verdade. A segunda: o perdão restaura o relacionamento, mas não apaga automaticamente as consequências. Davi foi perdoado — e ainda assim enterrou filhos.

Se você caiu, o caminho de volta está aberto. Mas o melhor momento para evitar a queda é antes dela, na varanda, quando ainda dá tempo de virar as costas.

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