Antigo Testamento
Noé
O homem que creu no impossível
- Onde está na Bíblia
- Gênesis 6–9
- Época
- período pré-patriarcal
A história de Noé: o dilúvio, a construção da arca durante décadas de descrédito, os animais, a pomba com o ramo de oliveira e a aliança do arco-íris.
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A história de Noé é uma das mais conhecidas do mundo — e uma das mais mal contadas. Virou tema de quarto de bebê, com animais sorrindo numa barquinha. O texto bíblico é bem mais sério do que isso: é a história de um homem que passou décadas construindo algo em que ninguém acreditava.
Um mundo que deu errado
Gênesis descreve uma humanidade em colapso moral: "a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente".
E então vem uma das frases mais pesadas da Bíblia:
Então, arrependeu-se o Senhor de ter feito o homem sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração. (Gênesis 6:6)
No meio disso, um contraste de uma linha: "Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor".
A ordem mais estranha já dada
Deus revelou a Noé o que viria e mandou construir uma arca com medidas precisas: cerca de cento e trinta e cinco metros de comprimento, três andares, uma porta, uma janela. Feita de madeira de gofer, calafetada por dentro e por fora.
Considere o tamanho do pedido. Noé deveria construir um navio gigantesco, longe do mar, para uma catástrofe que nunca havia acontecido, anunciada por uma voz que só ele ouviu.
O texto resume a resposta dele em uma frase, repetida duas vezes:
Assim fez Noé; conforme a tudo o que Deus lhe mandou, assim o fez. (Gênesis 6:22)
A tradição fala em décadas de construção. Décadas de martelo, de vizinhos passando, de perguntas sem resposta convincente. O Novo Testamento o chama de "pregador da justiça" — ou seja, ele avisou. E ninguém entrou na arca além da própria família.
O dilúvio
Entraram Noé, a esposa, os três filhos e as três noras — oito pessoas — e os animais, aos pares e, dos considerados limpos, de sete em sete. Um detalhe que costuma passar despercebido: "e o Senhor fechou a porta". Não foi Noé quem fechou.
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Choveu quarenta dias e quarenta noites; as fontes do abismo se romperam. As águas subiram por cento e cinquenta dias.
Quando finalmente começaram a baixar, a arca repousou sobre os montes de Ararate. Noé esperou. Soltou um corvo, que ficou indo e voltando. Soltou uma pomba, que voltou sem achar onde pousar. Sete dias depois, soltou de novo:
E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico. (Gênesis 8:11)
Sete dias depois, soltou pela terceira vez — e a pomba não voltou mais. A terra estava seca. No total, mais de um ano dentro da arca.
A aliança do arco-íris
Ao sair, a primeira coisa que Noé fez foi construir um altar. E Deus fez uma promessa unilateral: nunca mais destruiria toda a vida por um dilúvio. O sinal dessa aliança foi colocado no céu:
O meu arco tenho posto nas nuvens; este será por sinal da aliança entre mim e a terra. (Gênesis 9:13)
Toda vez que chove e o sol aparece, o sinal reaparece.
O fim que quase ninguém conta
A história não termina com o arco-íris. Noé plantou uma vinha, fez vinho, embriagou-se e ficou nu dentro da tenda. Um dos filhos expôs a vergonha do pai; os outros dois cobriram-no andando de costas para não vê-lo. Aquele episódio gerou uma maldição sobre a descendência de Cam.
A Bíblia poderia ter encerrado a história no momento glorioso. Mas ela registra a queda do herói — como faz com quase todos os seus personagens.
O que a história dele ensina hoje
Noé é o exemplo bíblico mais claro de obediência sem plateia. Ele construiu por décadas sem nenhum sinal externo de que estava certo. Não houve nuvem no horizonte por muito tempo — só a palavra que ele tinha ouvido.
Pela fé, Noé, divinamente advertido das coisas que ainda se não viam, temeu e, para salvação da sua família, preparou a arca. (Hebreus 11:7)
Há dois lembretes práticos aqui. O primeiro: fé costuma ter cara de trabalho longo e sem aplauso, não de emoção momentânea. O segundo, mais desconfortável: Noé atravessou o dilúvio e tropeçou na paz. Muita gente resiste na crise e cai depois dela, quando baixa a guarda.