Antigo Testamento

Moisés

O libertador

Onde está na Bíblia
Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio
Época
c. 1400 a.C.

A história de Moisés: o bebê salvo das águas, o príncipe que virou fugitivo, a sarça ardente, as dez pragas, a abertura do mar e os quarenta anos no deserto.

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Moisés viveu três vidas de quarenta anos cada: quarenta como príncipe no Egito, quarenta como pastor no deserto e quarenta como líder de um povo inteiro. Cada fase parecia anular a anterior — e cada uma foi necessária.

Um bebê numa cesta

Moisés nasceu durante um genocídio. Os hebreus haviam se multiplicado no Egito, e o faraó, temendo uma revolta, ordenou que todo menino hebreu recém-nascido fosse lançado ao rio.

A mãe dele o escondeu por três meses. Quando não deu mais, fez o que a ordem mandava — de um jeito só dela: colocou o bebê no rio, dentro de uma cesta calafetada. A filha do faraó o encontrou, teve compaixão e o criou como filho. Por indicação da irmã do menino, que vigiava de longe, a própria mãe biológica foi contratada como ama de leite.

Assim, o menino que deveria morrer cresceu no palácio de quem mandou matá-lo — e foi amamentado pela própria mãe hebreia, que teve tempo de lhe contar de onde ele vinha.

O príncipe que virou fugitivo

Adulto, Moisés viu um egípcio espancando um hebreu. Olhou para os lados, matou o egípcio e escondeu o corpo na areia. No dia seguinte, ao tentar apartar a briga de dois hebreus, ouviu a frase que revelou que tudo se sabia: "Queres tu matar-me, como mataste o egípcio?".

O faraó soube. Moisés fugiu.

Aos quarenta anos, ele perdeu tudo de uma vez: posição, país e identidade. Foi parar em Midiã, casou-se com Zípora e passou os quarenta anos seguintes cuidando de ovelhas — o trabalho mais desprezado pelos egípcios.

A sarça que ardia sem se consumir

Foi apascentando o rebanho que ele viu um arbusto pegando fogo sem queimar. Ao se aproximar, Deus falou do meio da chama, chamando-o pelo nome e mandando que tirasse as sandálias, pois o chão era santo.

E veio a missão: voltar ao Egito e tirar o povo de lá.

Moisés apresentou cinco objeções seguidas — quem sou eu, o que direi, e se não crerem, não sei falar, envia outra pessoa. Foi na segunda que Deus revelou o próprio nome:

EU SOU O QUE SOU... Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (Êxodo 3:14)

Deus não venceu a insegurança dele com elogios. Venceu com uma promessa: "Certamente eu serei contigo".

As dez pragas

Moisés voltou ao Egito com o irmão Arão. Diante do faraó, repetiu a exigência que se tornaria histórica: "Deixa ir o meu povo".

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O faraó recusou. Vieram as dez pragas — água em sangue, rãs, piolhos, moscas, peste no gado, úlceras, granizo, gafanhotos, trevas e, por fim, a morte dos primogênitos. Cada praga atingia diretamente uma divindade egípcia; era um confronto entre poderes.

Na última noite, cada família hebreia sacrificou um cordeiro e marcou os umbrais da porta com o sangue. A morte passou por cima daquelas casas — origem da Páscoa, celebrada até hoje.

O faraó cedeu naquela madrugada.

A abertura do mar

A liberdade durou pouco antes do primeiro pânico. O faraó mudou de ideia e enviou seiscentos carros de guerra. O povo se viu encurralado: o exército atrás, o mar à frente.

Foi ali que Moisés disse uma das frases mais citadas da Bíblia:

Não temais; estai quietos e vede o livramento do Senhor... O Senhor pelejará por vós, e vós vos calareis. (Êxodo 14:13-14)

O mar se abriu, o povo passou em seco e as águas voltaram sobre os carros egípcios.

Quarenta anos no deserto

O que deveria ser uma viagem de semanas virou uma travessia de quarenta anos. No monte Sinai, Moisés recebeu os Dez Mandamentos. Ao descer com as tábuas, encontrou o povo adorando um bezerro de ouro — e quebrou as tábuas no chão.

Vieram décadas de murmuração, sede, fome, rebeliões e recomeços. E, apesar disso, o texto guarda um detalhe íntimo sobre esse líder exausto:

E falava o Senhor a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo. (Êxodo 33:11)

A porta que ele não atravessou

Perto do fim, o povo reclamou de sede outra vez. Deus mandou Moisés falar à rocha; ele, irritado, bateu na rocha duas vezes e disse: "faremos nós sair água desta rocha?". A água veio, mas o gesto lhe custou a entrada na terra prometida.

Moisés subiu o monte Nebo, viu Canaã de longe e morreu ali, aos cento e vinte anos, "sem que os olhos se lhe escurecessem". Ninguém sabe onde ele foi sepultado.

O que a história dele ensina hoje

Moisés é a prova de que Deus usa pessoas incompletas. Ele foi assassino, fugitivo, gago por autodefinição, impaciente até o fim. Passou quarenta anos achando que era importante, quarenta descobrindo que não era nada e quarenta aprendendo que Deus é tudo.

Se você sente que perdeu tempo demais, ou que a sua fase de fracasso anulou o seu chamado, lembre: o Moisés que Deus usou não foi o príncipe de trinta anos, foi o pastor de oitenta.

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