Antigo Testamento

Salomão

O rei mais sábio — e o mais contraditório

Onde está na Bíblia
1 Reis 1–11, 2 Crônicas 1–9, Provérbios, Eclesiastes
Época
c. 970 a.C.

A história de Salomão: pediu sabedoria em vez de riquezas, construiu o Templo e ficou famoso no mundo inteiro — e mesmo assim terminou a vida longe de Deus.

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Salomão é, provavelmente, a maior advertência da Bíblia. Não porque começou mal — começou espetacularmente bem —, mas porque prova que dom e sabedoria não garantem fidelidade. É possível saber tudo e ainda assim se perder.

Um começo improvável

Ele era filho de Davi com Bate-Seba — a mesma relação que começou em adultério e assassinato. O primeiro filho daquela união morreu. Salomão foi o segundo.

Isso já diz algo: a linhagem que levaria ao Templo e ao Messias passou pelo episódio mais vergonhoso da vida de Davi. A Bíblia não esconde nem maquia essa origem.

O pedido

Jovem e recém-empossado, Salomão foi a Gibeom oferecer sacrifícios. Ali Deus apareceu em sonho com uma oferta em aberto: "pede o que queres que eu te dê".

A resposta dele começa com uma confissão de despreparo — "sou apenas um menino pequeno; não sei como sair nem como entrar" — e termina no pedido que o definiu:

Dá, pois, ao teu servo um coração entendido para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal. (1 Reis 3:9)

Ele não pediu vida longa, riqueza nem a morte dos inimigos. Pediu capacidade de servir bem. E recebeu, de bônus, tudo o que não pediu.

A prova dos fatos

O teste veio logo. Duas mulheres, moradoras da mesma casa, tiveram filhos com dias de diferença. Um bebê morreu durante a noite, e cada uma afirmava que o vivo era seu. Não havia testemunhas.

Salomão mandou trazer uma espada e ordenou que dividissem a criança viva em duas.

Uma das mulheres concordou. A outra gritou que preferia entregá-la à rival a vê-la morta. O rei devolveu o menino a esta última: o amor verdadeiro tinha se identificado sozinho.

O auge

O reinado dele foi o ponto mais alto da história de Israel. Quarenta anos de paz. Fronteiras seguras. Comércio marítimo, cavalos, ouro em quantidade absurda.

Construiu o Templo em Jerusalém — sete anos de obra — no lugar onde a presença de Deus habitaria em meio ao povo. Na dedicação, fez uma oração longa e lúcida, reconhecendo o óbvio que muitos esqueciam: "eis que os céus e os céus dos céus não te podem conter, quanto menos esta casa que eu tenho edificado".

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A fama atravessou fronteiras. A rainha de Sabá veio de longe testar a sabedoria dele com perguntas difíceis e voltou dizendo que não lhe haviam contado nem a metade.

A queda, em câmera lenta

O texto bíblico é direto sobre onde tudo começou a ruir:

E teve setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração. (1 Reis 11:3)

A maior parte desses casamentos era política — selavam alianças com nações vizinhas. Cada esposa estrangeira trouxe seus deuses, e Salomão, para agradar, foi construindo altares. Astorete, Milcom, Quemos, Moloque.

Não foi uma decisão única e dramática. Foi uma concessão de cada vez, ao longo de décadas, feita pelo homem que sabia perfeitamente o que estava fazendo. Deus havia aparecido a ele duas vezes.

O resultado veio depois da morte dele: o reino se dividiu em dois e nunca mais se reuniu.

O livro do homem que já tinha tudo

Eclesiastes é atribuído a ele, e lê-se como um balanço de fim de vida. Salomão descreve ter experimentado tudo o que se pode experimentar — projetos, prazer, vinho, música, riqueza, conhecimento — e o veredito se repete como um refrão:

Vaidade de vaidades, tudo é vaidade. (Eclesiastes 1:2)

A palavra traduzida por "vaidade" tem o sentido de vapor, sopro, algo que você tenta segurar e escapa entre os dedos.

O livro fecha com a conclusão de quem voltou de longe: "teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque este é o dever de todo o homem".

O que a história dele ensina hoje

Salomão prova que sabedoria não é caráter. Ele escreveu Provérbios inteiros sobre resistir à sedução e sobre a companhia que se escolhe — e foi derrubado exatamente por aí. Saber a coisa certa e fazer a coisa certa são músculos diferentes.

Ensina também como as quedas realmente acontecem: quase nunca por um salto, quase sempre por uma escada de pequenas concessões razoáveis. Nenhum daqueles casamentos pareceu, isoladamente, o fim da linha.

E deixa uma pergunta incômoda para quem tem talento de sobra: o dom te leva longe, mas quem te sustenta lá é outra coisa.

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