Novo Testamento

Paulo

O perseguidor que virou apóstolo

Onde está na Bíblia
Atos 7–28 e as cartas paulinas
Época
século I

A história de Paulo: o fariseu que perseguia cristãos, o encontro na estrada de Damasco, as viagens missionárias, os naufrágios e as cartas que moldaram o cristianismo.

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Paulo escreveu treze das vinte e sete cartas do Novo Testamento. Nenhuma pessoa, além de Jesus, influenciou tanto o cristianismo. E ele começou a própria carreira religiosa tentando destruí-lo.

Saulo de Tarso

Nasceu em Tarso, na Cilícia, com um conjunto raro de credenciais: judeu da tribo de Benjamim, fariseu formado aos pés de Gamaliel — o mestre mais respeitado de Jerusalém — e cidadão romano de nascimento, o que lhe dava direitos legais que a maioria não tinha.

Ele mesmo descreveu o próprio zelo:

Quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível. (Filipenses 3:6)

A primeira aparição dele na Bíblia é discreta e sinistra: no apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir cristão, "as testemunhas depositaram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo". Ele consentia na morte.

Depois disso, passou a devastar a igreja: entrava nas casas, arrastava homens e mulheres e os entregava à prisão.

A estrada de Damasco

Munido de cartas de autorização, Saulo viajava a Damasco para prender os cristãos de lá. No caminho, uma luz do céu o cercou. Ele caiu por terra e ouviu:

Saulo, Saulo, por que me persegues? (Atos 9:4)

Ele perguntou quem era. A resposta reformulou tudo o que ele acreditava: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues".

Note o que Jesus disse — não "por que persegues meus seguidores", mas "por que me persegues". Ele se identificou pessoalmente com as pessoas que Saulo prendia.

Saulo levantou-se cego. Passou três dias sem ver, sem comer e sem beber.

Ananias

Deus mandou um discípulo chamado Ananias procurá-lo. Ananias fez a objeção mais razoável do livro de Atos: "Senhor, a muitos ouvi acerca deste varão, quantos males tem feito aos teus santos".

Foi mesmo assim. E a primeira palavra que o perseguidor ouviu de um cristão depois da conversão foi: "Irmão Saulo". Algo como escamas caiu dos olhos dele, e ele voltou a ver.

Poucos dias depois já pregava nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus — para espanto de todos, que perguntavam se aquele não era o mesmo homem que vinha para prendê-los.

As viagens missionárias

Paulo fez três grandes viagens missionárias pelo mundo mediterrâneo, ao longo de mais de uma década, fundando igrejas em cidades como Antioquia, Filipos, Tessalônica, Corinto e Éfeso.

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O método era quase sempre o mesmo: chegava a uma cidade, começava pela sinagoga, era rejeitado, voltava-se aos gentios, formava uma comunidade, deixava líderes e seguia adiante — mantendo contato por cartas.

Foi ele quem defendeu, no Concílio de Jerusalém, a posição que mudou a história: que os não judeus não precisavam se tornar judeus para seguir a Cristo. Sem essa decisão, o cristianismo teria permanecido uma seita dentro do judaísmo.

O preço

Ele mesmo listou o que custou:

Recebi dos judeus cinco quarentenas de açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo. (2 Coríntios 11:24-25)

Em Filipos, foi preso e espancado — e, à meia-noite, cantava hinos na cadeia quando um terremoto abriu as portas. Em Listra, foi apedrejado e arrastado para fora da cidade como morto; levantou-se e voltou.

Havia ainda o que ele chamou de "espinho na carne", um problema que pediu três vezes a Deus para remover. A resposta que recebeu virou uma das frases mais citadas por quem sofre:

A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. (2 Coríntios 12:9)

Prisão e fim

Preso em Jerusalém após um tumulto, Paulo usou o direito de cidadão romano e apelou a César. Foi enviado a Roma — viagem que incluiu um naufrágio, catorze dias à deriva e uma picada de cobra na ilha de Malta.

O livro de Atos termina de forma quase anticlimática: Paulo em prisão domiciliar em Roma, por dois anos, recebendo visitas e pregando "com toda a ousadia, sem impedimento algum".

A tradição afirma que foi executado em Roma, decapitado — pena reservada a cidadãos romanos — durante a perseguição de Nero. A última carta atribuída a ele contém um balanço sereno:

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. (2 Timóteo 4:7)

O que ele escreveu

As cartas de Paulo formaram a espinha dorsal da teologia cristã: a justificação pela fé em Romanos, o hino ao amor em 1 Coríntios 13, a humilhação e exaltação de Cristo em Filipenses 2, a armadura de Deus em Efésios 6.

Escreveu textos sobre alegria estando preso, sobre contentamento tendo passado fome, sobre graça tendo sido o pior dos perseguidores — e ele nunca se esqueceu disso: chamou a si mesmo de "o principal dos pecadores".

O que a história dele ensina hoje

Paulo é a resposta bíblica mais direta a quem acha que foi longe demais para ser perdoado. O homem que segurava as roupas dos assassinos de Estêvão escreveu metade do Novo Testamento.

Mas há um segundo ensino, menos citado: a conversão dele não anulou a formação dele. Deus usou o conhecimento rabínico, a cidadania romana e a inteligência afiada que Saulo já tinha — só mudou a direção. Nada da sua história é desperdiçado quando é entregue.

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