Antigo Testamento

Josué

O sucessor que atravessou o Jordão

Onde está na Bíblia
Êxodo, Números 13–14, Livro de Josué
Época
c. 1400 a.C.

A história de Josué: passou quarenta anos como auxiliar de Moisés e mais quarenta esperando no deserto por causa do medo alheio — até liderar a entrada em Canaã.

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Suceder Moisés era uma das tarefas mais ingratas já atribuídas a alguém. Moisés tinha aberto o mar, falado com Deus face a face e recebido a Lei. Josué assumiu depois disso — e a primeira coisa que Deus lhe disse foi, essencialmente, que ele não precisava ser Moisés.

Quarenta anos carregando as sandálias de outro

Josué aparece pela primeira vez como comandante militar na batalha contra os amalequitas, enquanto Moisés segurava as mãos levantadas no alto do monte.

Depois disso, some para o segundo plano — e é justamente aí que a história fica interessante. Ele é descrito como o servo de Moisés desde a mocidade. Subiu parte do caminho do Sinai. E o texto registra que, quando Moisés voltava da tenda da congregação, Josué não se apartava do meio dela.

Ele ficava. Sem plateia, sem cargo, sem previsão de quando seria a vez dele.

Os dez que tiveram medo

Quando doze espias foram enviados a Canaã, todos viram a mesma coisa: terra fértil, cachos de uva que precisavam de dois homens para carregar — e cidades fortificadas com gente de estatura enorme.

Dez voltaram dizendo que era impossível: "éramos como gafanhotos aos nossos olhos, e assim também o éramos aos seus olhos". Só Josué e Calebe defenderam a entrada.

O povo escolheu o medo, e a geração inteira foi condenada a morrer no deserto. Josué tinha razão e mesmo assim passou quarenta anos vagando por causa da decisão dos outros. Entrou na terra como um homem de oitenta anos, tendo enterrado quase todos os seus contemporâneos.

O encargo

Morto Moisés, veio a comissão. Deus repete a mesma ordem quatro vezes no primeiro capítulo, o que já indica o estado emocional do novo líder:

Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não pasmes, nem te espantes, porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares. (Josué 1:9)

E veio junto uma instrução que não tem nada de militar: que o livro da lei não se apartasse da boca dele, e que nele meditasse de dia e de noite. A estratégia de guerra começava pela leitura.

O rio na pior época

O Jordão estava transbordando, época de cheia. A ordem foi que os sacerdotes com a arca entrassem na água primeiro — e as águas só se dividiram depois que as plantas dos pés tocaram a beira.

O povo atravessou em seco. Doze pedras foram tiradas do leito do rio e empilhadas em Gilgal, para que os filhos perguntassem no futuro o que significava aquilo.

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Jericó

A tomada de Jericó é uma das batalhas mais estranhas já registradas. Nenhum aríete, nenhuma escada, nenhum cerco por fome.

Marchar em volta da cidade uma vez por dia, durante seis dias, em silêncio. No sétimo, sete voltas, e então um único grito com toque de trombetas. Os muros caíram.

A única casa poupada foi a de Raabe, a prostituta que escondera os espias — e que apareceria séculos depois na genealogia de Jesus.

A derrota que ninguém esperava

Logo depois, o exército foi humilhado numa cidade pequena chamada Ai. Trinta e seis homens morreram e o coração do povo se derreteu.

Josué rasgou as vestes e caiu por terra. A resposta de Deus foi seca: "levanta-te; por que estás prostrado assim sobre o teu rosto?". Israel havia pecado — Acã tinha escondido despojos proibidos debaixo da própria tenda.

A lição foi dura: a vitória anterior não garantia a seguinte, e o problema não estava fora do acampamento.

Houve ainda o episódio dos gibeonitas, que enganaram Israel com pães mofados e sandálias gastas fingindo vir de longe. O texto aponta o erro com precisão cirúrgica: "e não pediram conselho ao Senhor".

A despedida

Repartida a terra entre as tribos, já velho, Josué reuniu o povo e fez a pergunta que ficou:

Porém, se vos parece mal aos vossos olhos servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais... porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor. (Josué 24:15)

Ele não impôs. Colocou a escolha na mesa e disse pelo que a casa dele já estava decidida.

O que a história dele ensina hoje

Josué é o personagem de quem espera. Foram oitenta anos até a liderança plena — quarenta como auxiliar e quarenta pagando pela covardia alheia. Nada disso foi desperdício: ele aprendeu a liderar observando alguém liderar.

A derrota em Ai também ensina algo raro de ouvir: nem todo revés é ataque do inimigo. Às vezes é um problema interno que ninguém quis olhar.

E o episódio dos gibeonitas é quase engraçado de tão atual. Erraram porque decidiram rápido, com base na aparência das evidências, sem consultar Deus. Acontece diariamente.

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