Antigo Testamento
Jonas
O profeta que fugiu de Deus
- Onde está na Bíblia
- Livro de Jonas
- Época
- c. 780 a.C.
A história de Jonas: fugiu de barco para não pregar aos inimigos do seu povo, foi engolido por um grande peixe — e ficou furioso quando a cidade se arrependeu.
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Quase todo mundo conhece a parte do peixe. Poucos conhecem o final — e é o final que explica o livro inteiro. Jonas não é a história de um profeta com medo. É a história de um profeta que não queria que seus inimigos fossem perdoados.
Para onde ele foi mandado
Deus mandou Jonas a Nínive, capital da Assíria. Isso precisa de contexto para fazer sentido.
Os assírios eram o império mais temido do mundo antigo, e tinham fama merecida de crueldade extrema: empalavam prisioneiros, esfolavam gente viva, empilhavam crânios na entrada das cidades conquistadas. Eram os que acabariam destruindo o reino do norte de Israel.
Mandar um profeta judeu pregar arrependimento em Nínive era como mandar alguém oferecer perdão a quem massacrou a sua família.
A fuga
A reação dele foi imediata e literal: Nínive ficava a nordeste, e ele comprou passagem para Társis, no extremo oeste do mundo conhecido.
E Jonas se levantou para fugir da presença do Senhor para Társis. (Jonas 1:3)
O texto repete a expressão "da presença do Senhor" como quem sublinha o absurdo — um profeta tentando sair do alcance de Deus.
Veio a tempestade. Os marinheiros, pagãos, oraram cada um ao seu deus e jogaram a carga fora. Jonas, o único que conhecia o Deus verdadeiro, dormia no porão.
Quando a sorte apontou para ele, ele confessou e propôs a solução: joguem-me ao mar. E há um detalhe que humilha o profeta — os marinheiros pagãos remaram com todas as forças tentando salvá-lo, e só cederam quando não havia mais jeito.
O peixe
Ele passou três dias e três noites no ventre do grande peixe. A oração registrada ali é feita de citações dos Salmos, e termina com uma frase que ele ainda não tinha entendido de verdade:
Ao Senhor pertence a salvação. (Jonas 2:9)
O peixe o vomitou em terra seca. E a ordem veio pela segunda vez.
O sermão mais preguiçoso da Bíblia
Jonas entrou na cidade e pregou uma frase: "ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida".
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Sem chamado ao arrependimento, sem menção ao nome de Deus, sem oferta de perdão. Oito palavras no hebraico. É a pregação mais curta e mais desanimada das Escrituras.
E funcionou. A cidade inteira creu, proclamou jejum, vestiu pano de saco. O rei desceu do trono, tirou o manto, sentou-se na cinza e ordenou que até os animais jejuassem. Deus viu e não trouxe o mal que havia anunciado.
Foi o avivamento mais bem-sucedido da história bíblica — obtido pelo profeta mais relutante.
A confissão que explica tudo
E então vem a virada. Diante do maior sucesso ministerial imaginável, Jonas ficou furioso. E finalmente disse o motivo real da fuga:
Não foi isto o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade. (Jonas 4:2)
Ele não fugiu por medo de fracassar. Fugiu por medo de dar certo. Conhecia o caráter de Deus e não queria vê-lo aplicado àquela gente.
Depois pediu para morrer, saiu da cidade e sentou-se num lugar de onde pudesse assistir — ainda esperando que o fogo caísse.
A planta e a última pergunta
Deus fez crescer uma planta que lhe deu sombra, e Jonas se alegrou muito. No dia seguinte, um verme a feriu e ela secou; veio um vento quente e ele desfaleceu, pedindo a morte de novo.
Aí Deus fez a pergunta que fecha o livro:
Tiveste tu compaixão da aboboreira, na qual não trabalhaste... E não tinha eu compaixão da grande cidade de Nínive, em que estão mais de cento e vinte mil homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda? (Jonas 4:10-11)
E o livro termina aí. Sem resposta de Jonas. A pergunta fica aberta, endereçada a quem está lendo.
O que a história dele ensina hoje
Jonas é um espelho desconfortável. O problema dele não era descrença — era teologia correta com o coração errado. Ele sabia exatamente quem Deus era e não gostava disso quando a misericórdia ia para o lado errado.
O livro também mostra que Deus não desiste de quem foge. A segunda ordem é idêntica à primeira: nenhuma repreensão, nenhuma degradação de cargo.
E a pergunta final continua valendo. Todo mundo tem uma Nínive — alguém cujo perdão nos incomodaria. O livro não diz o que Jonas respondeu porque a resposta que interessa é a nossa.
Frases da Bíblia