Novo Testamento

João Batista

A voz que clama no deserto

Onde está na Bíblia
Mateus 3 e 14, Marcos 1 e 6, Lucas 1 e 3, João 1 e 3
Época
século I

A história de João Batista: o profeta do deserto que preparou o caminho de Jesus, batizou-o no Jordão, duvidou dele na prisão — e foi morto por causa de uma dança.

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Jesus disse dele algo que não disse de mais ninguém: "entre os nascidos de mulheres, não surgiu outro maior do que João Batista". E, no entanto, João morreu preso, sozinho, e com dúvidas. As duas coisas convivem na mesma história.

O nascimento improvável

Zacarias era sacerdote e Isabel era estéril. Os dois já estavam avançados em idade quando o anjo Gabriel apareceu a Zacarias no templo, durante o turno dele de queimar incenso, anunciando um filho.

Zacarias duvidou e pediu um sinal. Recebeu um: ficou mudo até o nascimento do menino.

Quando a criança nasceu, os parentes queriam chamá-lo de Zacarias, como o pai. Isabel disse que não, o nome seria João. Consultaram o pai por gestos, e ele escreveu numa tabuinha: "João é o seu nome". A língua se soltou na mesma hora.

O homem do deserto

João cresceu e foi viver no deserto da Judeia. A descrição dele é proposital: vestia pelos de camelo e um cinto de couro, e comia gafanhotos e mel silvestre.

Não é excentricidade gratuita. Aquela roupa era exatamente a descrição do profeta Elias, séculos antes. Quem visse João sabia ler o sinal: os profetas tinham voltado, depois de quatrocentos anos de silêncio.

A pregação dele era curta e incômoda: "arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus". E multidões saíam de Jerusalém e de toda a região para ouvi-lo e ser batizadas no Jordão.

Sem medo de ninguém

Quando fariseus e saduceus apareceram, ele não os recebeu com cortesias. Chamou-os de raça de víboras e avisou que não adiantava alegar descendência de Abraão.

Aos que perguntavam o que fazer, respondia com uma ética prática e sem rodeios: quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; cobradores de impostos, não exijam além do estipulado; soldados, não oprimam ninguém e contentem-se com o soldo.

Quando lhe perguntaram se ele era o Cristo, foi categórico:

Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor. (João 1:23)

E disse que não era digno nem de desatar a correia das sandálias daquele que viria.

O batismo de Jesus

Então Jesus veio da Galileia para ser batizado por ele. João recusou: "eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim?". Jesus insistiu, e ele cedeu.

Ao sair da água, os céus se abriram, o Espírito desceu como pomba e uma voz declarou aquele como o Filho amado.

No dia seguinte, ao ver Jesus se aproximando, João disse a frase que resume toda a missão dele:

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Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. (João 1:29)

A frase mais difícil

Com o tempo, os discípulos de João começaram a reclamar: as pessoas estavam indo embora, todos corriam atrás de Jesus. Era o fim natural do movimento dele.

A resposta é uma das declarações mais maduras do Novo Testamento:

É necessário que ele cresça e que eu diminua. (João 3:30)

Ele se comparou ao amigo do noivo, aquele que organiza a festa e se alegra ao ouvir a voz do noivo — e cuja alegria não depende de ser o centro.

A dúvida na prisão

João foi preso por Herodes Antipas. O motivo foi ter dito publicamente o que ninguém dizia: que não era lícito Herodes viver com Herodias, mulher do próprio irmão.

E é da prisão que vem o momento mais humano da história dele. Ele mandou discípulos perguntarem a Jesus:

És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro? (Mateus 11:3)

O mesmo homem que tinha visto o céu se abrir e ouvido a voz agora perguntava se não teria se enganado. Vale notar como Jesus respondeu: não o repreendeu. Mandou contar o que estava acontecendo — cegos veem, coxos andam, aos pobres é anunciado o evangelho. E logo depois disse à multidão que não havia nascido ninguém maior do que João.

O fim

No aniversário de Herodes, a filha de Herodias dançou diante dos convidados. Agradou tanto que o rei jurou dar-lhe o que pedisse, até metade do reino.

Orientada pela mãe, ela pediu a cabeça de João Batista num prato.

Herodes ficou contristado, mas por causa do juramento e dos que estavam à mesa, mandou executá-lo na prisão. Os discípulos de João recolheram o corpo e foram avisar Jesus.

O que a história dele ensina hoje

João é o retrato raro de quem sabe qual é o seu tamanho. Teve multidões, teve influência, e usou tudo isso para apontar para outro — e depois saiu de cena de propósito.

A dúvida dele na prisão também é um presente para quem se sente culpado por vacilar. O maior profeta segundo Jesus teve uma crise de fé, e a resposta que recebeu não foi bronca: foram evidências e um elogio público.

E há uma verdade dura na história: fidelidade não garante final feliz. João fez tudo certo e morreu decapitado por causa de um juramento bêbado numa festa. A Bíblia não esconde isso — e continua chamando a vida dele de a maior entre os nascidos de mulher.

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