Antigo Testamento

Gideão

O covarde que virou general

Onde está na Bíblia
Juízes 6–8
Época
período dos juízes

A história de Gideão: foi chamado de valente herói enquanto se escondia num lagar, pediu prova atrás de prova — e venceu um exército inteiro com trezentos homens e trombetas.

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A cena de apresentação de Gideão é uma das mais irônicas da Bíblia. Ele está escondido, malhando trigo dentro de um lagar — lugar de espremer uvas, apertado e abrigado, escolhido só para não ser visto pelos midianitas. É nesse exato momento que o anjo aparece e o cumprimenta.

O cumprimento improvável

O Senhor é contigo, homem valoroso. (Juízes 6:12)

Um homem escondido num buraco sendo chamado de valente herói. Deus não descreveu o que via; descreveu o que faria dele.

A resposta de Gideão foi um desabafo, não uma adoração: se o Senhor é conosco, por que tudo isso nos sobreveio? Onde estão todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram?

E quando veio a ordem para libertar Israel, ele apresentou o currículo ao contrário:

Ai, senhor meu, com que livrarei a Israel? Eis que a minha família é a mais pobre em Manassés, e eu o menor na casa de meu pai. (Juízes 6:15)

Os midianitas

O contexto explica o desespero. Havia sete anos que os midianitas subiam na época da colheita com camelos sem número, "como gafanhotos em multidão", e destruíam tudo o que a terra produzia. Israel se escondia em cavernas e fortalezas nos montes.

Era fome planejada, ano após ano.

O primeiro ato: à noite

A primeira ordem foi derrubar o altar de Baal do próprio pai e cortar o bosque ao lado.

Gideão obedeceu — e o texto é honesto sobre como: levou dez homens e fez de noite, porque temia demais a casa de seu pai e os homens da cidade para fazer de dia.

De manhã, a cidade quis matá-lo. Foi o pai dele quem o defendeu com um argumento afiado: se Baal é deus, que ele mesmo se defenda.

O velo

Reunido o exército, Gideão pediu confirmação. Estendeu um velo de lã na eira: se o orvalho molhasse só a lã e o chão ficasse seco, ele saberia.

Aconteceu. Ele espremeu da lã uma tigela cheia de água.

E então pediu de novo — agora ao contrário, a lã seca e o chão molhado — com um pedido de desculpas embutido: "não se acenda contra mim a tua ira".

Aconteceu de novo. Deus não se irritou com a insegurança dele nem uma vez.

O exército reduzido a nada

Trinta e dois mil homens se apresentaram. E Deus disse que era gente demais — para que Israel não se gloriasse dizendo que a própria mão o tinha livrado.

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Primeiro corte: quem estivesse com medo podia voltar. Vinte e dois mil foram embora. Sobraram dez mil.

Segundo corte: no ribeiro, foram separados os que beberam água lambendo com a mão dos que se ajoelharam. Restaram trezentos.

Contra um acampamento que o texto descreve como deitado no vale "como gafanhotos em multidão", com camelos incontáveis.

O sonho do inimigo

Antes da batalha, Deus mandou Gideão descer sozinho ao acampamento inimigo para ouvir o que diziam — e acrescentou uma concessão: se ainda temes, leva o teu criado.

Ele levou.

Lá, ouviu um soldado contando um sonho a outro: um pão de cevada rolou e derrubou uma tenda. O companheiro interpretou na hora — era a espada de Gideão. Ele adorou ali mesmo e voltou.

O encorajamento dele veio da boca do inimigo.

Trombetas, cântaros e tochas

A tática foi psicológica. Os trezentos cercaram o acampamento à noite, cada um com uma trombeta e uma tocha escondida dentro de um cântaro vazio.

Ao sinal, quebraram os cântaros, tocaram as trombetas e gritaram. Trezentas trombetas soando ao mesmo tempo sugeriam trezentas companhias — porque normalmente só o comandante de cada grupo tocava.

O acampamento acordou no escuro, cercado de luz e barulho, e o resultado é registrado sem rodeios: o Senhor pôs a espada de cada um contra o seu companheiro. Eles se mataram entre si e fugiram.

O fim que estraga o herói

Vitorioso, Gideão foi convidado a reinar sobre Israel, junto com o filho e o neto. Ele recusou com a resposta certa: nem eu dominarei sobre vós, nem meu filho; o Senhor sobre vós dominará.

Mas pediu uma coisa: os brincos de ouro do despojo. Recebeu quase vinte quilos de ouro e fez com aquilo um éfode, que colocou na sua cidade.

E o texto conclui: todo o Israel se prostituiu ali após ele, e foi por laço a Gideão e à sua casa.

O homem que derrubou o altar de Baal terminou construindo o objeto que virou o novo ídolo.

O que a história dele ensina hoje

Gideão mostra que Deus chama pelo potencial, não pelo estado atual. O "homem valoroso" foi dito a alguém escondido — e não era elogio vazio nem ironia, era antecipação.

Também é um alívio para quem duvida: o velo foi pedido duas vezes, e a segunda com pedido de desculpas. Não houve bronca. Houve resposta.

E o fim é a advertência que costuma ser cortada das pregações. A parte mais perigosa da história dele não foi o exército de midianitas — foi o que ele fez com o ouro depois de vencer.

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