Novo Testamento

Estêvão

O primeiro mártir

Onde está na Bíblia
Atos 6–8
Época
século I

A história de Estêvão: foi escolhido para servir refeições, virou o primeiro cristão morto pela fé — e sua execução espalhou a igreja e teve Saulo de Tarso como testemunha.

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Estêvão aparece na Bíblia por dois capítulos apenas. Foi escolhido para uma função administrativa, fez o discurso mais longo do livro de Atos e morreu apedrejado. E a morte dele fez pela expansão do cristianismo mais do que qualquer estratégia planejada.

Escolhido para servir mesas

A igreja de Jerusalém crescia rápido e surgiu um conflito bem concreto: as viúvas dos judeus de cultura grega estavam sendo esquecidas na distribuição diária de alimentos.

Os apóstolos convocaram a comunidade e propuseram escolher sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, para cuidar disso enquanto eles se dedicavam à oração e à palavra.

Estêvão é o primeiro da lista, descrito como homem cheio de fé e do Espírito Santo.

Vale sublinhar o cargo: entrega de comida. Não era pregador oficial nem apóstolo. Era logística de assistência social.

Alguém difícil de contestar

Mas ele não ficou só nas mesas. O texto diz que fazia prodígios e sinais entre o povo, e que homens de várias sinagogas se levantaram para discutir com ele.

E não conseguiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava.

Quando o argumento falhou, apelaram para o método antigo: subornaram testemunhas para acusá-lo de blasfemar contra Moisés e contra Deus, e o arrastaram ao Sinédrio.

As acusações eram distorções — diziam que ele afirmava que Jesus destruiria o templo e mudaria os costumes. E o narrador insere um detalhe estranho e lindo no meio do julgamento: todos os que estavam assentados no conselho viram o rosto dele como o rosto de um anjo.

O discurso

O sumo sacerdote perguntou se aquilo era verdade, e Estêvão respondeu com uma aula de história de Israel — o discurso mais longo de todo o livro de Atos.

Ele percorreu Abraão, José, Moisés, o tabernáculo, Salomão. E foi construindo dois argumentos sem dizê-los abertamente até o fim.

O primeiro: Deus nunca esteve preso a um lugar. Falou com Abraão na Mesopotâmia, esteve com José no Egito, apareceu a Moisés no deserto do Sinai. O templo não era a jaula de Deus — "o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens".

O segundo: o povo sempre rejeitou quem Deus enviava. Recusaram José, recusaram Moisés, perseguiram os profetas.

E então fechou o laço, sem suavizar nada: homens de dura cerviz, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.

O céu aberto

Eles ficaram furiosos e rangiam os dentes. E Estêvão, cheio do Espírito Santo, olhou para cima:

Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus. (Atos 7:56)

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O detalhe é significativo. O Novo Testamento fala repetidamente de Cristo assentado à direita do Pai. Aqui ele está de pé — como quem se levanta para receber alguém que está chegando.

Taparam os ouvidos, gritaram e o arrastaram para fora da cidade.

A morte

Enquanto o apedrejavam, ele fez duas orações que ecoam palavra por palavra as de Jesus na cruz.

Primeiro: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.

Depois, ajoelhado, clamando em alta voz:

Senhor, não lhes imputes este pecado. (Atos 7:60)

E o texto conclui com uma delicadeza inesperada para uma execução: e, tendo dito isto, adormeceu.

O rapaz que guardava as roupas

No meio da cena, Lucas coloca uma informação aparentemente lateral: as testemunhas depuseram as suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo.

E, no versículo seguinte, que Saulo consentia na morte dele.

Esse jovem viraria Paulo. Anos depois, já apóstolo, ele mesmo lembraria daquele dia numa oração, mencionando que estava presente e guardava as roupas dos que o matavam. A cena nunca saiu da cabeça dele.

O que a morte dele provocou

Naquele dia começou uma grande perseguição, e os cristãos foram espalhados pelas regiões da Judeia e da Samaria.

E aí está a ironia central: até então a igreja estava concentrada em Jerusalém. A perseguição fez o que nenhum plano missionário tinha feito — os que foram espalhados iam por toda parte anunciando a palavra.

O evangelho chegou à Samaria e, depois, ao mundo, empurrado por uma tentativa de destruí-lo.

O que a história dele ensina hoje

Estêvão foi escolhido para organizar a distribuição de comida e acabou sendo o primeiro a morrer pela fé. Ninguém lhe deu o título de pregador — ele simplesmente serviu bem onde foi colocado, e o resto veio.

A oração final dele é a marca mais difícil de imitar de todo o Novo Testamento. Sob as pedras, ele pediu perdão para quem as atirava. Um dos que estavam ali escreveria depois metade do Novo Testamento.

E a história mostra que resultado e sucesso raramente coincidem no prazo esperado. Do ponto de vista do dia, foi uma derrota completa: o homem morreu e a igreja se dispersou. Foi exatamente essa dispersão que levou o evangelho para fora de Jerusalém.

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