Antigo Testamento

Elias

O profeta do fogo — e do desespero

Onde está na Bíblia
1 Reis 17 – 2 Reis 2
Época
c. 870 a.C.

A história de Elias: enfrentou sozinho 450 profetas de Baal e viu fogo cair do céu — e, dias depois, sentou-se no deserto pedindo para morrer.

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Elias tem o currículo mais espetacular do Antigo Testamento: fechou o céu, multiplicou farinha, ressuscitou um menino, chamou fogo do céu e foi levado num redemoinho sem passar pela morte. E, no meio disso tudo, teve um colapso tão fundo que pediu a Deus para morrer. As duas coisas estão a poucos capítulos de distância.

Aparece do nada

Israel estava sob Acabe, o pior rei que tivera até então, casado com Jezabel, princesa fenícia que importou o culto a Baal e caçava os profetas do Senhor.

Elias surge no texto sem genealogia, sem chamado narrado, sem apresentação. Simplesmente aparece diante do rei e anuncia que não haveria orvalho nem chuva senão pela palavra dele.

Baal era, entre outras coisas, o deus da chuva e da fertilidade. A seca foi um ataque direto ao currículo do ídolo.

Escondido e sustentado

Deus o mandou para o ribeiro de Querite, onde corvos lhe traziam pão e carne de manhã e à tarde — aves impuras servindo de garçom a um profeta.

Quando o ribeiro secou, foi enviado a Sarepta, território de Sidom, terra natal de Jezabel. Ali encontrou uma viúva recolhendo lenha para preparar a última refeição para si e para o filho antes de morrerem de fome.

Ele pediu que ela fizesse primeiro um bolo para ele. Parece cruel, até se ver o que veio depois: a farinha da panela e o azeite da botija não acabaram durante toda a seca.

Depois o filho dela adoeceu e morreu. Elias o levou para o quarto, estendeu-se sobre o menino três vezes e clamou. O menino voltou a viver.

O monte Carmelo

Três anos depois, Elias marcou o confronto. Convocou todo o Israel ao monte Carmelo, junto com os 450 profetas de Baal, e começou com a pergunta que resume o problema do povo:

Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o, e se Baal, segui-o. E o povo nada lhe respondeu. (1 Reis 18:21)

A proposta foi simples: dois bois, dois altares, nenhum fogo aceso. O deus que responder por fogo, esse é Deus.

Os profetas de Baal começaram de manhã. Clamaram, saltaram ao redor do altar, gritaram até o meio-dia. Elias começou a ironizar: gritem mais alto, talvez ele esteja meditando, ou ocupado, ou viajando, ou dormindo. Eles se retalharam com facas até sangrar. Nada.

À tarde, Elias reconstruiu o altar do Senhor com doze pedras, cavou um rego em volta e mandou derramar água sobre tudo três vezes, até encher o rego. Então fez uma oração curta.

O fogo caiu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, o pó e a água do rego. O povo caiu de rosto em terra.

Depois veio a chuva, e Elias correu à frente do carro de Acabe até Jezreel — cerca de trinta quilômetros.

O colapso

Foi o auge absoluto. E o que vem em seguida é o motivo pelo qual essa história é tão necessária.

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Jezabel mandou um recado jurando matá-lo em vinte e quatro horas. E o homem que acabara de enfrentar 450 profetas sozinho fugiu apavorado, deixou o servo para trás, andou um dia no deserto, sentou-se debaixo de um zimbro e pediu a morte:

Basta; toma agora, ó Senhor, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais. (1 Reis 19:4)

Repare no que Deus não fez. Não o repreendeu, não citou o Carmelo, não perguntou onde tinha ido parar a fé dele.

Um anjo o tocou e mandou que comesse. Ele comeu e dormiu. O anjo voltou, mandou comer de novo, porque o caminho seria longo demais para ele.

Comida, sono, comida, sono. Foi esse o primeiro tratamento.

A voz mansa e delicada

Fortalecido, caminhou quarenta dias até Horebe e se abrigou numa caverna. Deus perguntou o que ele fazia ali, e Elias despejou a queixa: só ele havia sobrado, e procuravam matá-lo.

Então mandaram que saísse e ficasse no monte.

Passou um vento fortíssimo que fendia montes — o Senhor não estava no vento. Depois um terremoto — o Senhor não estava no terremoto. Depois um fogo — o Senhor não estava no fogo.

E depois do fogo uma voz mansa e delicada. (1 Reis 19:12)

O profeta do espetáculo precisou aprender que Deus quase sempre trabalha no sussurro.

Deus então lhe deu três tarefas concretas e uma informação que desmontava a autopiedade: havia sete mil em Israel que não tinham dobrado os joelhos a Baal. Ele nunca esteve tão sozinho quanto se sentia.

O fim sem morte

Elias chamou Eliseu, que estava arando com doze juntas de bois, e lançou sobre ele o seu manto.

No último dia, atravessou o Jordão ferindo as águas com o manto. Eliseu pediu porção dobrada do espírito dele. Então apareceu um carro de fogo com cavalos de fogo, e Elias subiu ao céu num redemoinho.

Séculos depois, ele reaparece — no monte da transfiguração, conversando com Jesus.

O que a história dele ensina hoje

Elias é a prova bíblica de que exaustão e depressão não são falta de fé. O homem estava no ponto mais alto da carreira quando desabou, e a Bíblia registra isso sem constrangimento.

E o tratamento que ele recebeu é um dos trechos mais humanos das Escrituras: antes de qualquer palavra espiritual, veio comida e sono. Depois, presença. Depois, trabalho concreto. Nessa ordem.

A frase "só eu fiquei" também merece atenção. Ele estava sinceramente convencido disso, e estava errado por sete mil pessoas. O isolamento mente sobre os números.

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